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Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando
madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda vai
bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais
essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e
tomara que ele continue cantando “eu sou tão feliz com ela” sem encontrar
resposta ao “que será que dá dentro da gente que não devia”.
Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e
cria os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a
uma faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas. É
ele que mina a autoimagem, que nos constitui como velhos, desconhece e, de
certa forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos sem que
envelheça o alumbramento diante da vida.
Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o
mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo
criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de areia que
escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem,
amigos que morrem, não fosse o tempo “um senhor tão bonito quanto a cara do meu
filho“, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer?
Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.
A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao
contrário, se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si
a criança e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo
que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem. E, se é
verdade que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que quem não se
reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das emoções que
persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar em um homem ou
uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.
Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do esforço
patético de camuflar com cirurgias e botoxes — obras na casa demolida — a
inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer, que fez da cirurgia
estética um próspero campo da medicina e de uma vendedora de cosméticos a
mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela depreciação cultural e
social que o avançar na idade provoca.
Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma
sequência de perdas que começam com a da beleza e a da saúde. Verdadeira até
então, essa depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das
mentalidades: a velhice não é mais o que era antes. Nem é mais quando era
antes. Os dois ritos de passagem que a anunciavam, o fim do trabalho e da
libido, estão, ambos, perdendo autoridade. Quem se aposenta continua a viver em
um mundo irreconhecível que propõe novos interesses e atividades. A curiosidade
se aguça na medida em que se é desafiado por bem mais que o tradicional choque
de gerações com seus conflitos e desentendimentos. Uma verdadeira mudança de
era nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privilégio e o susto de
dela participar.
A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por
progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma
naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor. Esmaece a
fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice que envelhece.
Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser uma profecia que se
autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.
”Meu tempo é curto e o tempo dela sobra”, lamenta-se o trovador, que não
ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que
conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres, um
dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas memórias escritas por
Marguerite Yourcenar.
Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é
segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala de espera,
espectadores conformados e passivos da degradação das células e dos projetos de
futuro, aguardando o dia da traição.
Chico, à beira dos setenta anos, criando com brilho, ora literatura , ora
música, cantando um novo amor, é a quintessência desse fenômeno, um tempo da
vida que não se parece em nada com o que um dia se chamou de velhice. Esse
tempo ainda não encontrou seu nome. Por enquanto podemos chamá-lo apenas de
vida.
O Globo de 21 de janeiro de 2012
Na noite de Natal há uma pulsação acelerada no coração do mundo. É um tempo de exacerbação de sentimentos, quando presenças e ausências ganham maior intensidade.
Há quem não goste do Natal, torça para que passe depressa esse frenesi do consumo, com desempregados patéticos sentados entre eletrodomésticos, equilibrando seus mal colados bigodes de algodão, mais assustando do que encantando as crianças. Há muita dor nesse dia mesmo se a televisão afirma que o Natal é alegria, propondo o mundo surreal das compras em um mega shopping superlotado. Essa histeria comprovaria a perversão de uma festa religiosa.
São verdades que não são toda a verdade. Dando o laço nos embrulhos dos presentes não me vejo estimulando o consumo e sim criando laços com que amarro a esperança de manter próximos e unidos os que chamo de meus. Não fosse a vida destruidora de laços e criadora de nós… Ainda assim, é possível preservar nossos gestos em um espaço interior, excêntrico às análises econômicas e que elas não têm o poder de desencantar.
O chamado sistema — o que quer que isso queira dizer em sua imprecisão conceitual — não expropria a vida do sentido que lhe damos, a exemplo do valor das memórias do Papai Noel da infância, indeléveis, revividas nos que hoje ainda são crianças e acreditam em um ser que não existe mas lhes é benfazejo. Essas também entram no pacote dos críticos do Natal. Uma tolice, dizem, fazer acreditar no que não existe.
O que seria de nós sem as coisas que não existem? O mundo seria de uma banalidade insuportável e, nós, prisioneiros dos cinco sentidos. Não aconteceria, por exemplo, a literatura, essa arte de dar vida a criaturas imaginárias que, no entanto, nos acompanham vida afora. Se às crianças basta crer para ver, aos adultos também.
Nem tudo se explica pelo volume de negócios e seus negociantes. A economia não é a senha que descodifica o mundo. Há um outro modo de viver o Natal, como um desejo de vínculos que se exprime na ceia das famílias e dos amigos, no cartão de boas-festas ou no telefonema dado às pressas, em meio à correria nossa de cada dia, que sublinha que alguém não deixou de existir para nós. São os vínculos que resistem a um mundo de relações esgarçadas, de amores líquidos, de individualismo delirante, do cada um por si. A força e o mistério da noite de Natal é trazer à tona o ancestral desejo de pertencimento.
Nem tudo se explica pelo volume de negócios e seus negociantes. A economia não é a senha que descodifica o mundo. Há um outro modo de viver o Natal, como um desejo de vínculos que se exprime na ceia das famílias e dos amigos, no cartão de boas-festas ou no telefonema dado às pressas, em meio à correria nossa de cada dia, que sublinha que alguém não deixou de existir para nós. São os vínculos que resistem a um mundo de relações esgarçadas, de amores líquidos, de individualismo delirante, do cada um por si. A força e o mistério da noite de Natal é trazer à tona o ancestral desejo de pertencimento.
Há um potencial regenerador, um desejo de comunidade religiosa ou familiar ou, simplesmente, de união a algum ente querido. No Natal dói mais a solidão e disso bem sabem os que conheceram o exílio e as noites gélidas em terra estrangeira, com saudade da falsa neve de algodão. Doem mais as ilusões perdidas, os que
já não estão nas fotos e perambulam nos corredores da memória, presentes, mas invisíveis, fantasmas da permanência que a vida promete e não cumpre.
Em todo o mundo multidões se deslocam para passar essa noite com “os seus”, o que pode ser — e é — o inferno dos aeroportos e rodoviárias, o pesadelo dos engarrafamentos, mas é também o esforço de riscar, no espaço, um traço de união entre os que vivem separados. A dificuldade na noite de hoje é multiplicar-se entre
os entes queridos, espalhados em casamentos rompidos e recompostos ou em cidades que a globalização e a imigração fizeram conviver sem que por isso sejam menos distantes.
Por que Bing Crosby, morto há décadas, cantando “White Christmas”, ainda faz chorar mesmo os politicamente corretos? Talvez porque, no fundo de si mesmo, ninguém tenha renunciado a uma noite feliz.
A noite de Natal é um tempo suspenso, um desafio à temporalidade hipermoderna. Um sursis em um mundo predatório que trata o tempo como tratou seus recursos naturais, exigindo de todos os malabarismos da quase ubiquidade. Dia a dia luta-se pelo que se acredita será, no futuro, um lugar ao sol enquanto, no presente, o sol é subtraído dos escritórios sem janelas. No Natal cada um reserva para si um tempo inegociável — nessa noite tempo não é dinheiro — e se recolhe a um espaço privado, na contramão do
cotidiano frenético que, impiedoso, devora os momentos de intimidade.
Há uma inocência nessa noite em que se dá presente, come-se bem, misturam-se gerações e, imperceptível, vive em cada um de nós um Deus pobre e nu, mas acalentado, a quem reis magos trazem ouro, incenso e mirra. Os amigos nos trazem um vinho, um livro, um brinquedo. Esse Deus, cedo ou tarde encontrará seu Judas e morrerá na cruz. Mas terá tido sua noite feliz, sua noite de criança.
Feliz Natal.
Artigo publicado no jornal O Globo em 24/12/2011
Ele conseguirá sobreviver nesse mundo de maquiáveis de fancaria?
O que faz dele um personagem insólito no panorama dessa cidade que não é asua e que conquistou? Trata-se de um homem aparentemente comum, voz mansa, fala pausada e gestos sóbrios, distante do estereótipo do policial truculento, espécie de misterioso herói urbano que, de camisa polo e desarmado, dobrou o poderio do tráfico e devolveu a dignidade à polícia que comanda. De onde vem o poder de José Mariano Beltrame?
Tínhamos esquecido, a golpes de decepção, que há quem tenha convicções, sentido de dever e que, quando tudo isso vem associado à competência técnica, à honestidade e à determinação,
dessa combinatória improvável pode enfim resultar um homem público que cumpra o seu destino.
Quando conheci Beltrame, há cerca de três anos, o que mais me impressionou, além de sua cortesia, foi a coragem de dizer a verdade, de admitir o que, na época, eram seus estreitos limites, não prometer o que não poderia fazer. Prometia, isso sim, fazer tudo que pudesse.
É o antidemagogo, pensei, saindo de seu gabinete. Sobreviverá nesse mundo de maquiáveis de fancaria? Sobreviveu graças a vitórias que estabeleceram entre ele e seus comandados um clima de respeito, entre ele e a população laços tão fortes de confiança que essa aliança lhe deve dar a segurança de que já foi por nós plebiscitado no posto que ocupa.
Estamos celebrando a derrubada de um mito persistente que apregoava a invencibilidade do tráfico, a incurável corrupção da polícia, o destino dos pobres encurralados e humilhados em becos e vielas, de prisioneiros de classe média por trás das grades de suas casas. O fim das noites de ruas desertas e dos sonhos de imigração.
Há que celebrar o prestígio da honestidade e da honra que se recuperam como valores depois de uma longa treva em que bandidos eram heróis e modelo para os jovens. Talvez seja essa a maior das vitórias de Beltrame, que nos chega junto com os territórios devolvidos à cidade. Não se subestime esse legado impalpável, mas precioso: a força do seu exemplo.
A julgar pelo entusiasmo da população, ela não esperava por outra coisa, embora muitos exprimissem seu ceticismo e desesperança sob a forma do ”não vai dar certo, é fogo de palha”. Louvem-se as exceções, iniciativas como o Disque Denúncia, os familiares de vítimas que, inconformados, protestavam, os juízes e promotores incorruptíveis e a mídia que chamou a si o drama do Rio e não deu sossego à corrupção e à violência.
Os cariocas têm pelo Rio um estranho amor, ambíguo, que canta a beleza da cidade em prosa e verso, mas a maltrata no dia a dia. Uma espécie de contentamento passivo como se, por obra e graça de uma melhor gestão pública, da beleza natural ou do heroísmo de alguns, um milagre se produzisse. Passamos da euforia ao pessimismo como se o sucesso ou fracasso da cidade dependesse apenas de quem nos governa. Uma gangorra emocional em que pesam pouco os atos de cada um. Torcemos, mas não entramos em campo. Apesar do encantamento pela cidade, não creio que, nós cariocas, nos sintamos responsáveis por ela.
O que se tem dito e escrito sobre as favelas, sua ilegalidade e desordem, são puxões de orelha mais que justificados. Mas esse é também — e disso falamos bem menos — o cotidiano do asfalto. Nos últimos anos a alegria e a descontração da cultura carioca deslizaram perigosamente para a incivilidade.
Como um bumerangue, o vale-tudo se volta contra todos. Quem bloqueia os cruzamentos estrangula a si próprio com os nós do trânsito. Quem tem seu lixo recolhido na porta, nem por isso poupa do lixo as praias e praças, resquícios da casa grande em que a senzala são os lixeiros. Nem as ruas de seus carros mal estacionados. Nem se priva de andar de bicicleta na contramão. Quem fora do Brasil atravessa as ruas na faixa aqui não anda meia quadra para respeitar um mínimo de ordem urbana. São atos aparentemente triviais, mas que praticados por todos — ou quase todos — alimentam a cultura da desordem e da incivilidade. É esta cultura — que não é da favela ou do asfalto, mas de toda a cidade — que está em questão.
Têm agora uma chance única de se redimir todos aqueles que, ao longo dos anos, foram espelhando a omissão e a desordem do Estado e incorporando-as a seus próprios comportamentos como uma lei não escrita que absolvia a grande e a pequena corrupção, as grandes e as pequenas violências.
A população do asfalto, como a das favelas, está devendo a si mesma — e a um certo José Mariano — uma mudança de comportamento. Outro compasso em que acerte o passo aos novos tempos.
*Artigo publicado no jornal O Globo em 26.11.2011
Às vezes, inesperadamente, a história se acelera. Foi assim em 1968, quando, mundo afora, jovens foram às ruas, pedindo, uns, a imaginação no poder, outros, o povo no poder. Foi assim em 1989, quando caiu o muro de Berlim, levando de roldão o carcomido socialismo real. Tempos em que novas idéias e valores vieram à tona, regenerando tecidos sociais e culturais. Anos que invadiram as décadas que se seguiram.
2011 está sendo um ano assim. Do Cairo a Tel-Aviv, de Madri a Nova York, a indignação move multidões. São pessoas, não partidos, ocupando praças onde ecoa um sonoro “não”, entoado em diferentes refrões. Gente que, afirmando o que não quer, diz, pelo avesso, o que quer.
Não querem mais ditaduras. A Praça Tahrir deu o exemplo. O mundo árabe ecoou a mensagem primaveril e vai pondo para correr, um a um, ditadores que se acreditavam eternos. Mulheres sauditas saem às ruas dirigindo automóveis em desafio à lei que até isso lhes proibia. Além da carteira de motorista, ganham título de eleitoras e o direito de ser candidatas.
Na Indonésia, maior país islâmico, minissaias e véus se misturam nas praças em protesto contra a violência sexual. Oslo responde atribuindo o Prêmio Nobel da Paz a três mulheres, duas da Libéria e uma do Iêmen, defensoras dos direitos humanos e — coisa rara por lá — que entendem por humanidade os homens e as mulheres. Longe do espantalho fundamentalista, querem liberdade.
No Brasil não queremos mais a corrupção, que não é mais aceita, como já foi, como fato cultural, o que desonrava nossa cultura e exilava a ética. O movimento Ficha Limpa, inovador e eficaz, nos redime desse estigma.
Os indignados que acamparam em Madri — e o rastilho está correndo em toda a Europa — não querem mais injustiça. Questionam uma lógica econômica que destrói empregos e direitos sociais, denunciam o banditismo que impregna o sistema financeiro global.
Em Nova York, americanos ensaiam ocupar Wall Street e chamam de escroques senhores que até ontem eram o símbolo mesmo do poder e do sucesso. Sustentam que é dali, não do Iraque ou do Afeganistão, que provém a ameaça mais clara e iminente aos Estados Unidos. Em 2003, Warren Buffet, que entende do assunto, já alertava para o risco de uma “megacatástrofe” provocada pelos derivativos financeiros, “armas de destruição em massa” com o poder de destroçar a economia mundial.
Quando essa percepção se espalha pelo mundo, o rei nu perde suas míticas calças de veludo. O que está sendo repudiado como imoral não é só a ordem econômica. É um sistema de valores, ou melhor, um sistema desprovido de valores, que tem o dinheiro como fim e a ganância como princípio, destruidor dos laços de solidariedade que construíram a civilização, contrariando a lei da selva.
Não importa quantos manifestantes estarão neste sábado em frente à City de Londres ou na Grand Place de Bruxelas, e quantas mais cidades pelo mundo terão aderido ao dia mundial de protesto. A profundidade da indignação não se mede pelo número de indignados. A radicalidade da mensagem que estão mandando quebra o senso comum que teve longa vida e entregou ao mercado e aos políticos — e quão promíscua é a relação entre eles — o direito de decisão sobre o destino de todos.
Os protestos planetários dão o depoimento vivo sobre a agonia de um sistema político que, contaminado pelo sistema econômico, perdeu legitimidade. Órfãos de seus representantes os manifestantes se representam a si mesmos. Iniciativas debatidas na grande rede deságuam nas praças. Sem a rede não existiria a praça. Mas é a praça que tece a vida real. A rede e a praça são os recursos com que os “99%” contam frente à falência e à cumplicidade dos sistemas econômico e político.
Fechado em sua lógica, o mundo político não decodifica o enigma das ruas e desqualifica seus atores: arruaceiros, sonhadores que não sabem o que querem, sem programa e sem organização. Desconectados do mundo real, políticos míopes não medem a extensão de seu próprio desastre.
Os protestos não são um revival de nada. São um fato inaugural. Manifestações de rua são febris e, como a febre, sintomáticas. Podem refluir, mas nada será como antes. Terão sido o rascunho de uma nova agenda de angústias e alegrias humanas, não de perdas e ganhos financeiros. Liberdade, justiça e ética são demandas que sintetizam um novo humanismo. Expressões como bem viver e felicidade, que soavam piegas e fora de moda, ressurgem como esperanças.
A indignação é uma resposta à procura de sua pergunta. 2011 é um ano que está apenas começando.
*Artigo publicado no jornal O Globo em 15.10.2011
Ponte Vecchio, tesouro arquitetônico e coração turístico de Florença. A multidão ignora a deslumbrante perspectiva das pontes que se sucedem e se refletem no espelho do Rio Arno. Os olhos se voltam para grosseiras imitações de marcas famosas que imigrantes africanos, com os olhos assustados e gestos nervosos dos sem documentos, espalham pelo chão.
Um quarteirão adiante, a sede mundial de um dos ícones da moda, instalada em um palácio renascentista, garante a autenticidade de sua marca, símbolo de elegância e nobreza. O palácio é frequentado por poucos. A ponte é um formigueiro humano. Verdadeira ou falsa, todos usam a mesma marca.
A publicidade associa uma bolsa a um estilo de vida como se dentro dela viessem a felicidade e o refinamento. Quem não tem acesso ao produto verdadeiro compra na calçada, ao preço do camelo, a ilusão de uma vida que não tem e não terá, mas encena como real. Assim é se lhe parece.
Uma celebridade vende a peso de ouro sua imagem para associar seu nome a uma determinada marca. Marcas famosas não precisam produzir beleza ou qualidade. O que elas produzem passa a ser o padrão de beleza e qualidade. Seu valor é simbólico, muito mais do que real. Símbolos cobiçados mesmo sabendo tratar-se de uma contrafação. Mas um dia o feitiço se volta contra o feiticeiro.
Anders Breivik, assassino de jovens na Noruega, sinistra celebridade pela carnificina que provocou, ostenta orgulhoso as camisas de renomada marca. No manifesto psicótico que lançou na rede sugere que gente refinada como ele deveria vestir-se assim. Sem arrependimentos, apresenta-se como padrão de elegância. A tentativa da empresa dona da marca de impedi-lo de vestir sua camisa fracassou. Na Noruega, o tratamento dado aos presos, por mais repugnante que tenha sido o crime, é respeitoso. Desastrosa reversão de expectativas, uma antipropaganda de alcance mundial.
Os promotores de marcas famosas sabem – e é a chave do seu sucesso – que as necessidades têm limites, mas os desejos, não. Não previram que assassinos corruptos, mafiosos, cada vez mais numerosos e milionários, se enfeitariam com suas grifes na tentativa de ascender a uma suposta elite. Agora a publicidade terá que rever suas estratégias e proteger as marcas desvinculando-as de rostos – que ninguém sabe o que farão -, renunciando à sua vocação de vendedora de sonhos e aproximando-se do mundo real, terreno mais seguro e convincente.
No mundo regido pelo deus dinheiro, protetor dos mafiosos e corruptos que, no Brasil, proliferam como cogumelos, quem pode impedir um lavradaz eleito para o Congresso Nacional de posar com seu relógio símbolo de luxo, comprado com o dinheiro público? A ostentação cínica, primeira preocupação dos recém-chegados aos privilégios da fortuna, provoca a justificada ira dos que, trabalhando honestamente, têm sua carteira batida em impostos malversados. Ira não só contra ele, ou ela, lavradaz, mas também contra o malfadado relógio que, de objeto refinado, é rebaixado ao mundo dos cafajestes. Anos atrás um presidente malquisto desmoralizou o renome de uma gravata.
A náusea que a população sente frente à corrupção é tal que seus agentes estão se tornando Midas ao contrário: o que tocam vira lama. São párias com quem ninguém quer se parecer. Cada dia fica mais clara a relação direta entre os desastres da sociedade brasileira e a criminalidade que sustenta os luxos e fantasias de funcionários públicos e políticos desonestos.
Afinal, se não atiraram à queima-roupa em oitenta adolescentes, na certa, roubam o futuro de milhares de meninos pobres e negros que dão corpo e rosto às estatísticas de mortos na juventude. O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, disse, em entrevista recente, que seu sonho para as UPPs é oportunidade para os jovens. Sabe que aí reside o problema que a polícia, por si, não resolverá nunca.
A ética está se tornando um clamor público. Escolhendo a companhia de causas nobres e contemporâneas, também as empresas redefinem a relação com suas marcas. É o caso das que se empenham em criar nas áreas pacificadas as oportunidades que Beltrame reclama. Outras incorporam o valor da sustentabilidade como referência no presente e anúncio do futuro.
Amadurece, enfim, a consciência de que o envolvimento com a corrupção que turva as relações entre estado e mundo empresarial pode destruir a marca de uma empresa. Esse reconhecimento de que a corrupção é um beijo da morte vale também para os políticos. A sociedade compra cada vez menos propaganda, o que vale é a verdade.
* Artigo publicado no jormal O Globo em 17.09.2011
Sobre esse fundo azul, porque o Rio é um espelho do mar, vocês vão encontrar não apenas os dados sobre a vida da cidade – indicadores que informam sobre o andamento das políticas públicas. Também as informações sobre a nossa colaboração com a UPP Social e sobre a campanha de mudança de cultura cidadã que o RCV está lançando – a campanha do Mané. E ainda o acompanhamento do legado que os grandes eventos internacionais que escolheram o Rio como sede prometem deixar.
O novo site comemora o nosso quarto aniversário. Nesses quatro anos o RCV tem a festejar a aprovação da Emenda à Lei Orgânica nº 22, que obriga a Prefeitura a trabalhar com metas e indicadores; o monitoramento do Plano Estratégico apresentado pelo prefeito em dezembro de 2009 e os Acordos de Resultado, que são pactos firmados entre a Casa Civil da Prefeitura e os órgãos públicos para o acompanhamento e cumprimento das metas traçadas no Plano Estratégico. Esse tem sido nosso investimento, colaboramos e vamos continuar a colaborar para que a gestão da cidade se faça de maneira transparente. Mas só a própria população pode garantir que essa transparência seja permanente e cada vez maior. Só a população pode agir e exigir reparação quando sente que um interesse seu não foi atendido. Em cada bairro, em cada rua.
À população não cabe apenas reclamar. Ela tem responsabilidades como, por exemplo, a manutenção dos espaços públicos como ruas e praças que são nossas. Sujar e depredar são atitudes inaceitáveis, são o que chamamos de manezices, porque só um Mané tem a idéia de fazer essas coisas. E para conhecer melhor o Mané, clique na imagem dele em nossa home. E divirta-se, e colabore.
Apresente o Mané aos seus amigos.
Faz três anos que o conheci. Era verão na Provence e festejávamos o aniversário de um amigo. Ele lembrou seus 91 anos, serviu-me um copo de vinho, num gesto bíblico cortou o pão com as mãos e celebramos o bem viver, a amizade e o perfume de lavanda do verão provençal.
Quis saber se eu assistira a um filme chamado “Jules e Jim” — um cult da minha juventude — e se disse filho de uma mulher extraordinária. A personagem do filme, vivida por Jeanne Moreau, era sua mãe e com ela aprendera a amar e respeitar as mulheres.
Perguntava-se, angustiado, por que os jovens não se revoltavam contra um mundo tão injusto se até os prisioneiros dos campos de concentração se revoltavam. Stéphane Hessel, ele mesmo fugitivo de um campo nazista, último sobrevivente do grupo que redigiu a Declaração Universal dos Direitos Humanos, no ano passado escreveu um pequeno livro, não mais que 13 páginas: “Indignai-vos!”
O resto da história é conhecido: milhões de exemplares vendidos, reedições em todas as línguas, escuta mundial. Acusados de não se interessar por política, enredados na internet, foram os jovens que ecoaram o apelo de um ancião que falava dos valores e esperanças que fizeram dele um resistente ao nazismo.
O eco veio das praças. Onde mais iriam esses jovens que já não se reconhecem no sistema político e que, na rede, não param de repetir esse desgosto? Não foram eles que abandonaram a política, foram os políticos que, perdendo autoridade moral, os abandonaram.
É na comparação com Hessel que David Cameron, primeiro-ministro inglês, preocupado em tirar do ar as redes sociais, parece ainda mais aturdido. Falta-lhe o sentimento do mundo que fez de Hessel, nonagenário, interlocutor da juventude. Falta-lhe a História vivida em primeira pessoa, ao pé da letra das convicções, exemplar.
Pensando que o vandalismo se combate tirando do ar as redes sociais, Cameron encarna a clássica piada do marido traído que resolve evitar o adultério tirando o sofá da sala.
A violência que incendiou a Inglaterra não tem a mesma seiva que alimenta a onda de protestos que perpassam os continentes. Pilhando os ícones do consumo de luxo os saqueadores ingleses subscrevem a lógica de um sistema econômico predatório, voraz , estimulador de uma competitividade selvagem, do cada um por si e todos contra todos — ninguém pelos mais fracos — que recria a selva e a seleção natural como ordem do mundo.
Como se surpreender que feras, famintas de tudo, estejam à solta nas ruas de Londres?
Os saques são o rebatimento no submundo da sociedade da escroquerie financeira que, por cima, inventa derivativos e saqueia a economia mundial e as economias de cada um, vangloriando- se de seu estilo agressivo.
Ninguém pensou em tirar do ar a internet quando nela circulavam os golpes de quem vive de produzir dívidas e cobrar por elas. Quando os bancos colapsam, e as falências se dão em castelos de cartas, a conta final vai para os Estados, logo, para nós todos. A crise, de fato, é esse sistema, desgovernado e impune, que já arruinou meia dúzia de países e ameaça destroçar outros tantos. A internet é só o sofá da sala.
Na contramão do quebra-quebra de Londres, no Cairo pede-se liberdade contra ditaduras corruptas, em Santiago educação de qualidade, em Tel Aviv mais políticas sociais e menos gastos militares, em Atenas e Madri o direito ao futuro. Nestes dias, em Bombaim, o fim da corrupção.
O denominador comum é um desejo insatisfeito de justiça quando a injustiça se apresenta como a ordem natural das coisas. Condenação da hipocrisia dos que invocam leis que eles mesmos não respeitam, da democracia encenada como teatro do absurdo.
Os indignados não são uma ameaça à democracia, podem ser sua salvação. Como células-tronco, dão vida nova à política, esse tecido morto que hoje paralisa a democracia. “No hay crisis, es que ya no te quiero”, dizem os jovens espanhóis.
Em Brasília, a presidente da República ataca a corrupção enfrentando a chantagem da ingovernabilidade. Governar não é dividir o butim. No Senado, Cristovam Buarque, fiel à sua biografia, lança uma frente pluripartidária pela ética. Pedro Simon, octogenário, convoca a sociedade. A OAB se movimenta. A UNE se cala. Esclerosada, não se lembra mais quem é. A indignação circula nas infovias que, como sabemos, fazem esquina com as ruas. A ética como política chega ao Brasil.
Moral da história: idosos rejuvenescem, acelerando o futuro. Hessel pode dormir tranquilo. A indignação que varre o mundo ressuscita os valores que inspiraram sua vida.
* Artigo publicado no jornal O Globo em 20.08.2011
Quem leu “Os 12 trabalhos de Hércules” vai se lembrar: limpar as cavalariças do rei Áugias, que abrigavam a mais numerosa manada de cavalos da Grécia Antiga. Como o rei não limpava as estrebarias, ao longo do tempo foi se acumulando uma espessa camada de esterco que exalava terrível mau cheiro. Qualquer tentativa de remover a imundície liberava gases venenosos. Hércules encontrou uma solução original: desviar o curso de dois rios que, com o ímpeto de suas águas, limparam as cavalariças.
Enfrentar a corrupção, remover esse esterco, é trabalho hercúleo. Vai exigir de nós, brasileiros, uma energia que, distraídos e conformados, não temos demonstrado. Por que aceitamos a corrupção? Como não percebemos, pobres otários, que nos batem a carteira?
Faltava estabelecer o elo de causa e efeito, que a mídia vem sublinhando, entre o desgosto cotidiano com os serviços públicos e os patrimônios privados que se multiplicam surfando em um mar de lama e cinismo. Talvez fosse a ausência desse elo que explicasse o aparente imobilismo.
Ainda não nos habituamos a reconhecer no que, ocupando postos públicos, roubam, deixam roubar ou não punem quem rouba, os bandidos que são. Mais do que falsos espertos que nem as tragédias comovem - ao contrário, delas se aproveitam - são criminosos de alta periculosidade. Cada brasileiro está sendo assaltado por um bandido sem revólver.
A corrupção faz escola e impede que se façam escolas. Crianças e doentes são as principais vítimas como O Globo mostrou em recente reportagem.
Reagimos a cada nova denúncia como se fossem fatos esparsos, fragmentos de mais um dia. Não são. A corrupção é um só e imenso escândalo em vários atos em que se vai desvelando a transformação do Estado e da política em balcão de negócios. Cada obra pública, uma oportunidade para um malfeito. Cada cargo público, um lugar privilegiado para vantagens ilícitas.
Tudo isso num clima de deboche, de magoados fazendo muxoxos porque perderam postos e ameaçam se vingar tornando o país ingovernável. Tudo às claras porque a plateia, que somos nós, está ali para assistir, ou chorar… e pagar.
A corrupção é a grande ameaça que pesa hoje sobre o nosso futuro. O Brasil vem desfazendo sucessivos nós. A pobreza mobilizou a indignação dos que a recusavam como parte da paisagem, e a paisagem mudou. Na ditadura militar descobrimos que a liberdade é como ar que só parece indispensável quando nos falta. A censura encobria não só a tortura, também a corrupção. Restabelecemos a democracia.
A estabilidade econômica deu um golpe certeiro nas malandragens instaladas nas brechas da desordem da inflação. A exasperação da sociedade com a violência urbana, a honestidade e a coragem de um secretário de Segurança desmentiram lendas sobre exércitos mais bem armados do que o próprio Exército e territórios inexpugnáveis.
Assim foi-se construindo o país que hoje começamos a nos orgulhar. O enfrentamento da corrupção é condição de preservação da democracia e esperança de regeneração da política. Contando que superemos o sentimento de impotência e desesperança que a impunidade espalhou.
Foi duro para os signatários do Ficha Limpa ver um bando de Ali Babás sendo empossados. Não falta indignação, faltam os mecanismos que facilitem a coagulação desse sentimento fluindo, falta como traduzir um desejo latente em ação eficaz.
Contamos com aliados preciosos. A mídia que, atenta, denuncia; o Ministério Público que investiga; a parte viva do Judiciário que, como uma célula-tronco, pode regenerar seus tecidos mortos, punindo sem convivências.
Mas falta alguém. A presidente da República, que, em seu discurso de posse, prometeu ser implacável com a corrupção. No Ministério dos Transportes está cumprindo a palavra. Se assumir essa tarefa hercúlea, catalisará o que há de melhor no país, em todos os partidos, gêneros e gerações. Criará um fato político inaugural, colhendo um apoio amplo e surpreendente na sociedade.
Os políticos se habituaram a negociar na viscosidade dos conchavos de gabinete onde a chantagem é a regra. Quando a sociedade entra no jogo, se movimenta, é como um rio em cheia capaz de dispersar esses gases venenosos. A presidente terá desviado o curso dos rios.
Caso contrário, temo - e lamentaria - que seu governo, refém de um sistema político caduco, se estiole numa sucessão de escândalos que faria do futuro uma volta ao passado. Sua biografia não merece esse desastre. Nem aqueles que esperam tanto de uma mulher no poder.
* Artigo publicado no jornal O Globo em 23.07.2011
A internet está mudando nossa maneira de pensar? Nicholas Carr, ex-diretor da “Harvard Business Review”, acha que desde que Gutenberg inventou a imprensa o cérebro humano não era submetido a tamanha sacudidela. Além das óbvias mudanças na maneira de viver e de se comunicar, estaríamos pensando de maneira diferente, incapazes de concentração e introspecção. Ler um livro, uma verdadeira proeza.
A internet permeia de tal modo o cotidiano que é possível que um processo de adaptação esteja em curso. Estaríamos “evoluindo” para uma capacidade cada vez maior de consumir informação fragmentada e desconexa. Na ânsia do aqui e do agora, temos acesso a tudo e não entendemos quase nada. Mais informação e menos conhecimento, mais relacioamento e menos emoção. E, sobretudo, pouca reflexão. A internet estaria induzindo a um pensamento raso.
Carr é mais um no mar de análises sobre as tecnologias da informação. Até agora predominou o entusiasmo pelos benefícios: acesso a toda a informação existente, sonho da Biblioteca de Alexandria, conexão de cada um com todos, sem intermediários. Que dúvidas se manifestem é auspicioso. Não para defender uma impensável volta ao passado, antes para entender o futuro desse admirável mundo novo, já que nem toda adaptação ao ambiente tecnológico significa necessariamente um salto para a frente nas qualidades humanas.
Transformações falam de ganhos, mas silenciam sobre perdas. Incapacidade de ler Machado de Assis ou Garcia Márquez está mais para involução.
Sartre dizia que o inferno são os outros. Hoje o inferno é estar desconectado dos outros. Temo que, atualmente, ser nalguém seja estar conectado a uma infinidade de “amigos”. Não mais os poucos escolhidos pelo afeto privilegiado, e sim qualquer um que cai na rede revelando seu autorretrato enquadrado em um algoritmo, banalizando o que um dia se chamou de intimidade. O que quer dizer amizade numa rede de 2.000 amigos? Facebook, Twitter, YouTube, que sentido tem esse frenesi de relacionamento? Solidão em tempos de destruição de vínculos? Recriação de pertencimento a grupos, ainda que virtuais e fugazes? Ou outra coisa ainda mal entendida?
Por trás de cada postagem a caixa preta do ser humano. “Eu é um outro”, a fórmula de Rimbaud exprime os possíveis que se escondem em cada um: segundas vidas, identidades em caleidoscópio. A rede tem uma natureza de espelho, um espelho de circo que devolve uma imagem grotesca, porém reconhecível, de tudo que existe entre nós, as zonas de sombra do real expostas à luz do dia.
Os estudantes de Harvard inventaram um outro mundo. No filme “Redes sociais”, o personagem de Sean Parker, criador do Napster, é enfático: “Se um dia vivemos no campo e depois em cidades, hoje vivemos no ciberespaço.” Retórica ou sabedoria premonitória, o fato é que há quem habite uma boa parte do dia esse território virtual. Que mundo é esse, volátil e surpreendente?
A pergunta não lhes interessa, esse mundo não é movido a porquê. No universo de Mark Zuckerberg o que importa é como. Conectar-se é o verbo mágico que explica o seu Facebook. Conectar-se com que objetivo? “O objetivo é conectar-se.”
Não responderiam assim os dissidentes árabes que, usando o engenho de Zuckerberg, se apresentam entre si e ao mundo derrubando o mito de que o fundamentalismo islâmico era a única opção às ditaduras corruptas.
Os fatos dão razão a Hillary Clinton, que vê nas redes sociais um instrumento mais eficaz para derrubar ditaduras do que as malfadadas intervenções militares. Programadores americanos estão investindo milhões de dólares no protótipo de uma “inernet de bolso” capaz de neutralizar o poder dos governos autoritários de tirá-la do ar.
Sem internet os indignados da Praça Porta do Sol, de Madri, não teriam desafiado um sistema político caduco. Nem as mulheres da Arábia Saudita, indignadas porque proibidas de dirigir automóveis, teriam organizado sua primeira manifestação de rebeldia. No man’s land, o território da internet atravessa o mundo real. O meteorito invisível que os meninos de Harvard criaram chocou-se com o tempo presente. Um meteorito já pôs fim a uma era. Quem serão os dinossauros de hoje? Partidos políticos são fortes candidatos. “Estávamos adormicidos e despertamos”, “Chamam-na de democracia, mas não é”, “Democracia real, já!”, dizem as praças.
Com seus riscos e imensas oportunidades, a internet é o grande enigma do mundo contemporâneo. Decifrá-lo quem há de? Talvez já tenhamos sido devorados.
* Artigo publicado no jornal O Globo em 25.06.2011
Um assassino à solta graças às artimanhas de advogados bem pagos enquanto, no inferno das prisões, ardem o corpo e a alma de criminosos menos afortunados ou influentes é o bastante para desmoralizar qualquer sistema judiciário. Durante onze anos de liberdadede Pimenta Neses, após sua condenação, a permanência na prisão de outros criminosos, se não ilegal, era certamente injusta. E, no mínimo, inexplicável a uma opinião pública já para lá de descrente da Justiça.
Coincide a determinação de sua prisão pelo Supremo Tribunal Federal com a ruidosa inculpação do presidente do FMI por tentativa de estupro contra uma camareira na suíte do Hotel Sofitel de Nova York. Uma semana depois, um milhão de dólares de fiança e mais cinco milhões de garantia contra a fuga tiraram da cadeia e levaram Dominique Strauss-Kahn à prisão domiciliar, com uma tornozeleira magnética e uma vigilância privada, paga às suas próprias custas.
A imprensa francesa não deixou de apiedar-se da sorte de um homem que passou do luxo do Hotel Sofitel a um apartamento de classe média, na Broadway, exposto à execração midiática. Quase nada se disse sobre os invisíveis que ficaram atrás das grades porque não dispunham das centenas de milhatres de dólares mensais, custo aproximado da defesa de DSK. É a vida da Justiça e a injustiça da vida.
Quando do crime de Pimenta Neves, como agora no caso DSK, os refletores iluminam a tragédia do homem todo-poderoso que põe a vida a perder. No episódio brasileiro, Sandra Gomide, que perdeu a vida com duas balas nas costas, ficou fora de foco. Já a Promotoria de Nova York descreveu em detalhes, apoiada em indícios e testemunhos, uma africana apavorada, trêmula, escondida atrás de um armário, vomitando e balbuciando que tinha sido violada pelo cliente da suíte 2806, que ela não sabia sequer quem era.
Nafissatou Diallo, africana, muçulmana, viúva e mãe de uma filha de 15 anos, que cria sozinha, vai ter seu passado devassado pela defesa de DSK. Detetives privados já partiram para sua aldeia na Guiné Conakry para tentar descobrir qualquer coisa que a desabone e desacredite sua palavra.
A arrogância do poder tem o poder de cegar. Pimenta e DSK têm em comum a cegueira que não lhes permite entender que os tempos são outros, que já não se viola e mata uma mulher impunemente. Nem um nem outro são desinformados. Um dirigiu o mais tradicional jornal de São Paulo. O outro se preparava para lançar sua candidatura à Presidência da França pelo Partido Socialista que, há mais de quarenta anos, se bate pela dignidade das francesas.
Ambos foram expostos às crises de sociedades que, muito claramente, separaram o direito de sentir ciúme do direito de matar por ciúme, o direito ao desejo sexual do direito de, pela força, obrigar alguém a uma relação sexual. O que é crime está bem definido, e essas definições desautorizam a lei não escrita que legitimou, por tanto tempo, ora a defesa da honra ora a banalização da agressão sexual, como prova de virilidade.
Comentando o caso Strauss-Kahn, o ex-ministro da Cultura Jacques Lang deu de ombros: “Afinal, não morreu ninguém.” Jean-François Kahn, ex-diretor da revista de esquerda “Marianne”, alegou que não se tratava de um caso de estupro, mas de um “simples troussage de domestique”. Quem leu Emile Zola conhece a expressão que, no sentido literal, quer dizer amarrar um frango antes de colocá-lo no forno para assar. No sentido figurado, é o que ainda hoje pode acontecer, mundo afora, com domésticas ou camareiras.
Os valores mudaram dos tempos de Zola até hoje. Não há mais lugar para a cumplicidade, ainda que surda ou irônica, com a brutalidade. A desqualificação das mulheres como coisas, no entanto, conservou-se intacta no espírito de certos homens. Pior para eles.
A prisão de Pimenta, mesmo tardia, é um alerta para quem insiste em exercer um poder caduco. A inculpação de Strauss-Kahn dá-se em um país em que, há muito tempo, o estupro deixou de ser confundido com sedução. O próprio presidente Sarkozy o tinha alertado que tivesse cuidado: “Nos Estados Unidos essas coisas são levadas a sério e você sabe muito bem do que estou falando.” Tudo leva a crer que essa lição ele terá aprendido tarde demais.
Para além das tragédias pessoais, outra lição: a Justiça que nada tem de cega e está longe de ser igual para todos reflete como um espelho os precários equilíbrios da sociedade mas, na sua desequilibrada balança, o poder das mulheres está pesando cada vez mais.
* Artigo publicado no jornal O Globo em 28.05.2011
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