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25/11/2009 - Jornal O Globo
Editorial - Mudança de hábitos

A poluição de praias e lagoas e o acúmulo de lixo em ruas e praças estão entre as mazelas urbanas que incomodam os cariocas. No entanto, a julgar pelos dados de uma pesquisa da ONG Rio Como Vamos, a sujeira pública de que o prefeito Eduardo Paes justificadamente se queixa não parece ser um problema do cidadão que reclama, mas do vizinho: nada menos que 83% dos entrevistados afirmam que a população pode contribuir com a limpeza das praias - e, por extensão, das ruas -, evitando sujá-las.
Não é crível que os sujismundos execrados pelo prefeito se concentrem apenas na faixa minoritária da pesquisa (14%), que atribui à prefeitura a culpa exclusiva pelo excesso de lixo na cidade. Deduz-se, portanto, que, na hora de fazer a autocrítica sobre a produção da sujeira municipal, os cariocas, que em sua maioria abominam os detritos, preferem varrer a responsabilidade para debaixo do tapete - ou para o quintal do cidadão ao lado. Jogar papel na rua e deixar os restos do coco na areia da praia são hábitos incivilizados, enraizados na cultura não só do carioca, mas do brasileiro de um modo geral.
Disso decorrem números que tornam o recolhimento de lixo um problema sério para o poder público. Levantamento da Comlurb revela que, em um mês, canteiros, calçadas e ruas da cidade recebem 7,8 mil toneladas de detritos jogados por motoristas e pedestres. Na alta temporada, são retiradas de 60 a 70 toneladas de sujeira das praias nos dias de semana, e de cem a 180 toneladas nos fins de semana. Tais números levam a Comlurb a comprometer, somente com a faxina dos logradouros públicos, 60% do total de R$ 900 milhões gastos anualmente pela companhia.
Em boa hora, em nome da preservação de um delicioso hábito dos cariocas, o prefeito suspendeu a proibição do coco na areia. Mas igualmente oportuna foi sua convocação à população para mostrar boas maneiras em público. E, coroando a discussão sobre o lixo nosso de cada dia, Paes sugere, como contrapartida da prefeitura à mudança de hábitos dos sujismundos, o pacto de empregar em obras, sobretudo na área da saúde, o dinheiro que a Comlurb deixar de gastar em limpeza urbana.
Eis aí atraentes razões para a população se policiar na hora de jogar no chão o resto de uma embalagem, o palito do sorvete ou, na areia, a casca do coco: a cidade ganha em limpeza, o cidadão se compromete com o combate a sujeira, e o poder público se capitaliza para investir no município.


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